Domingo, 22 de Janeiro de 2006

ninguem merece...

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"Ninguém merece
Mãos que falam Mãos que falam

Margarida Rebelo Pinto

Se te dissesse que fiquei sem computador na passada sexta-feira 13 enquanto navegava na net à procura de uma solução para ti e que, por causa desse meu acto de altruísmo, o meu computador entrou em coma durante o fim-de-semana, foi para o estaleiro na segunda-feira e ainda não voltou, provavelmente encolherias os ombros e dirias, coitadinha, és tão querida, ao mesmo tempo que pensavas, ninguém te mandou meteres-te na minha vida.

Tens razão. Ninguém manda preocupar-me com os outros e tentar ajudá-los quando eles se metem em sarilhos. Ninguém me pede ajuda para nada, eu é que tenho a mania que sou mãe, bombeira, psicóloga e centro de emprego, eu é que tenho a mania que sou boa e que consigo resolver tudo, eu é que me armo em parva quando apanho o avião para te ir visitar como quem vai a Azeitão comprar queijos amanteigados.

Agora já não te digo nada. Enfiei a capa da distância e fechei-me no silêncio, sem sequer tentar perceber que bicho te mordeu, tu que duas semanas antes dormias na minha cama e me mandavas mensagens diárias de saudades quando te foste embora.

Tens razão. Devia ter feito como tu, envolver-me sem nunca desenvolver o que sentia por ti, não dar mais do que recebia e não pensar muito na vida, let it flow, let it flow, confiar na sorte e seguir em frente.

Todos os dias acordo e penso que, se tivesse sido um pouco mais prudente, teria desistido de ti quando desististe de mim. Se o tivesse feito, não teria perdido tempo a ajudar-te e o meu computador não teria ficado doente. Se o tivesse feito, não teria uma semana de trabalho, teria poupado dias de dúvida e de incerteza, teria cuspido esta pedra que tenho encostada à garganta e que teimo em convencer-me que é como um grão de areia sem a menor importância.

Não és o meu primeiro desgosto de amor, nem sequer o último; nunca me apaixonei por ti, apenas me sentia feliz ao teu lado e pensei que podia viver como tu, let it flow, let it flow, cada dia é só mais um dia, amanhã é outro dia e quando lá chegarmos logo se vê.

O que mais gostei em ti foi a tua franqueza. A tua descontracção. A tua independência. A tua forma livre de olhar para a vida. A tua capacidade de te entenderes com os outros e de fazeres valer as tuas ideias sem nunca entrar em conflito. A tua alegria de viver. O teu sentido de humor. E o teu cuidado comigo sempre que estávamos juntos, um misto de protecção e de uma certa forma de amor, ainda que não fosse feita de amor puro, era com certeza feita da mais pura amizade.

O amor não tem forma, mas a amizade é com toda a certeza uma das mais subtis formas de amor. A amizade é o amor sem preço nem prazo de validade. A amizade é feita de generosidade, tempo e confiança. Generosidade na forma de dar sem nunca pensar no que se pode receber em troca, tempo para aqueles de quem gostamos e a confiança intocável no outro, a certeza que não nos vai falhar, nem enganar, nem escarnecer, nem esquecer.

Se rejeitas a minha ajuda, talvez não a mereças. Se não respondes às minhas mensagens ou não me atendes o telefone, com certeza que não a mereces.

Não procuro respostas, nem desculpas, nem explicações. Não tenho tempo a perder com quem não tem tempo para mim. Não tenho nada para dar a quem já não quer receber. Mas sobram-me palavras e ideias e não tenho obrigação de as engolir, porque essas sim, são muito maiores do que um grão de areia.

Um dia destes um de nós vai ter pena da forma como tudo aconteceu, vai escrever uma carta ou fazer um telefonema, mandar umas flores ou um disco e o outro vai abrir-lhe os braços. Um de nós vai olhar para trás e ter saudades. Vai lembrar-se do corpo do outro, das noites em claro, dos presentes trocados, das viagens e de todas as revelações, de momentos que a memória arquivou numa gaveta que ninguém quer abrir.

Um de nós vai perceber como tudo isto é absurdo e vai querer entender-se com o outro. Mas dessa vez não serei eu, porque ninguém me manda ser mãe, bombeira e psicóloga. Tens razão quando me dizes, sem dizer nada, que preciso aprender a só dar quando recebo, a ficar calada quando não me pedem opinião e a ser mais egoísta e menos parva. Mas todos temos a nossa visão das coisas, todos temos direito à nossa razão. E a minha razão diz-me que ninguém merece isto, muito menos eu. "



jornal de noticia

coisa da de mim... às 19:58
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